Amamentar também é ser cuidada

Um guia para a mulher e sua rede de apoio

Em entrevista especial para o Agosto Dourado, Dra. Renata Assef fala sobre amamentação, dificuldades, culpa e a importância da rede de apoio

Amamentação é natural, mas isso não significa que seja sempre simples.

Dor, dificuldades com a pega, dúvidas sobre a produção de leite, cansaço, retorno ao trabalho e insegurança fazem parte da experiência de muitas mulheres. Há também aquelas que desejavam amamentar, mas não conseguiram ou não puderam. Por isso, falar sobre aleitamento materno também significa falar sobre a mulher que está por trás da amamentação e sobre as pessoas que podem ajudá-la nesse período.

No Agosto Dourado, conversamos com a Dra. Renata Assef sobre as principais dúvidas relacionadas à amamentação e sobre um aspecto que merece cada vez mais atenção: quem cuida de quem está cuidando?

Por que o leite materno é tão importante nos primeiros meses de vida?

Dra. Renata Assef: O leite materno oferece nutrientes adequados às necessidades do bebê e contém diversos componentes biologicamente ativos importantes para sua proteção e desenvolvimento.

Uma característica interessante é que sua composição se modifica ao longo da lactação, acompanhando diferentes necessidades da criança.

Quando a amamentação é possível, portanto, estamos falando de algo que vai muito além da alimentação.

A recomendação continua sendo amamentação exclusiva até os seis meses?

Dra. Renata Assef: Sim. A recomendação é o aleitamento materno exclusivo nos primeiros seis meses, sem necessidade de oferecer água, chás, sucos ou outros alimentos, salvo quando houver uma indicação específica.

A partir dos seis meses, começa a alimentação complementar. Isso não significa, porém, que seja necessário desmamar. A amamentação pode continuar até os dois anos ou mais.

E por que se fala tanto em começar a amamentação logo depois do nascimento?

Dra. Renata Assef: Sempre que as condições da mãe e do bebê permitirem, o contato pele a pele e o início precoce da amamentação são recomendados.

Esse primeiro contato favorece a adaptação do recém-nascido e pode contribuir para o estabelecimento da amamentação.

Mas é importante fazer uma ressalva: nem sempre isso é possível. Algumas situações exigem outros cuidados logo após o nascimento. Isso não significa que aquela mulher não conseguirá amamentar posteriormente.

Nos primeiros dias, muitas mulheres têm a sensação de que produzem pouco leite. Isso é normal?

Dra. Renata Assef: É uma insegurança muito comum.

Nos primeiros dias temos o colostro, produzido em pequenas quantidades. A mulher pode olhar para aquele volume e achar que é insuficiente, mas precisamos considerar as necessidades do recém-nascido nessa fase.

A produção tende a aumentar progressivamente.

Se houver dúvida sobre a quantidade de leite ou sobre se o bebê está mamando adequadamente, é melhor avaliar a mamada e a evolução da criança antes de simplesmente concluir que a mãe tem pouco leite.

Existe “leite fraco”?

Dra. Renata Assef: Não. Esse é um mito que atravessa gerações e ainda causa muita insegurança.

O leite materno pode apresentar diferenças de aparência e sua composição varia ao longo da lactação. Isso não significa que seja fraco.

Quando queremos saber se um bebê está recebendo aquilo de que necessita, precisamos observar ganho de peso, crescimento, fraldas, comportamento e eficiência das mamadas, entre outros fatores.

Amamentar precisa doer?

Dra. Renata Assef: Dor intensa ou persistente não deve ser simplesmente aceita como uma etapa obrigatória da amamentação.

Existem diferentes causas possíveis, como dificuldades na pega e no posicionamento, fissuras e outras condições das mamas.

A mensagem importante é: a mulher não precisa achar que deve suportar a dor para conseguir amamentar.

Se está doendo muito ou continuamente, precisamos entender o motivo.

Como uma mãe pode saber se o bebê está mamando o suficiente?

Dra. Renata Assef: Essa é provavelmente uma das maiores inseguranças porque a mãe não consegue visualizar quanto leite o bebê ingeriu.

Por isso, não avaliamos apenas quanto tempo ele ficou no peito.

Ganho de peso, crescimento, número de fraldas, comportamento e a própria dinâmica das mamadas ajudam a mostrar se a alimentação está adequada.

O acompanhamento pediátrico é muito importante nesse processo.

Quem está amamentando precisa fazer uma dieta cheia de restrições?

Dra. Renata Assef: Na maioria das vezes, não.

Uma alimentação equilibrada e variada costuma ser suficiente. Não há motivo para excluir preventivamente vários alimentos porque alguém disse que determinado alimento provoca cólica no bebê, por exemplo.

Existem situações específicas em que alguma restrição pode ser necessária, mas isso deve partir de uma avaliação individualizada.

E quem precisa tomar medicamentos? É necessário interromper a amamentação?

Dra. Renata Assef: Não necessariamente. Muitos medicamentos são compatíveis com a amamentação.

Existem outros que exigem ajustes, substituição ou cuidados específicos. Por isso, não é adequado interromper um tratamento ou suspender a amamentação por conta própria.

É uma decisão que precisa considerar o medicamento, a condição clínica da mulher e também as características do bebê.

E quando a mulher queria muito amamentar, mas não conseguiu?

Dra. Renata Assef: Precisamos falar sobre isso com muita clareza, inclusive durante o Agosto Dourado.

Promover o aleitamento materno é importante. Transformar a amamentação em uma medida de quanto uma mulher é ou não uma boa mãe, não.

Há mulheres que enfrentam dificuldades apesar de todo o esforço e orientação. Também existem situações clínicas da mãe ou do bebê que podem interferir na amamentação ou exigir outras formas de alimentação. Quando isso acontece, nosso objetivo continua sendo cuidar daquela mulher e garantir que o bebê esteja adequadamente alimentado. Ela precisa de orientação e acolhimento, não de culpa.

Existe muita pressão sobre a mulher para que ela consiga amamentar?

Dra. Renata Assef: Pode existir. E muitas vezes essa pressão começa justamente nas pessoas que querem ajudar.

Perguntas constantes sobre quantidade de leite, comparações com outras mães ou frases como “você precisa insistir” podem aumentar a insegurança de uma mulher que já está vivendo um período de muita adaptação.

Incentivar é diferente de cobrar.

Uma rede de apoio saudável ajuda a mulher a encontrar informação e assistência quando necessário, mas também respeita seus limites e as decisões tomadas junto aos profissionais que a acompanham.

Qual é o papel da família durante a amamentação?

Dra. Renata Assef: É enorme.

Só a mulher pode colocar o bebê no peito, mas praticamente todo o restante pode ser compartilhado.

Preparar uma refeição, cuidar da casa, resolver uma tarefa, ajudar com outro filho ou permitir que ela consiga dormir e tomar um banho com tranquilidade são formas muito concretas de apoiar a amamentação.

Às vezes, a pergunta mais útil não é “o bebê mamou?”, mas:

“O que eu posso fazer por você hoje?”

Muitas mães querem ajudar as filhas quando elas têm um bebê, mas têm medo de invadir. Como encontrar esse equilíbrio?

Dra. Renata Assef: Perguntando antes de fazer.

As avós têm experiência e podem ser uma rede de apoio maravilhosa. Mas aquela filha agora também está construindo sua própria experiência como mãe.

Algumas recomendações mudaram ao longo das gerações e cada família tem sua própria dinâmica.

Em vez de dizer “na minha época eu fazia assim”, talvez seja mais acolhedor perguntar:

“Como você gostaria que eu ajudasse?”

A experiência da avó continua sendo valiosa. O que muda é a maneira de oferecê-la.

E quando é a sogra que quer ajudar a nora?

Dra. Renata Assef: O princípio é muito parecido: disponibilidade com respeito aos limites.

Não é preciso deixar de participar por medo de interferir. É possível estar presente sem assumir decisões que pertencem ao casal.

Perguntar antes de visitar, oferecer uma ajuda concreta e respeitar as escolhas dos pais são atitudes simples.

Às vezes, dizer “estou aqui se você precisar” é muito mais útil do que oferecer uma lista de conselhos.

E uma amiga? O que ela pode fazer de verdade nesse período?

Dra. Renata Assef: Primeiro, não presumir que aquela mulher queira receber uma visita naquele momento.

Pergunte.

E, se quiser ajudar, pense também em coisas que não envolvam necessariamente pegar o bebê no colo.

Pode ser levar uma refeição, passar no mercado, resolver alguma tarefa ou ficar um pouco com o bebê para que a mãe tome banho.

E existe outra coisa importante: continuar sendo amiga daquela mulher.

Às vezes ela pode querer conversar sobre o bebê. Em outros momentos, pode querer falar sobre qualquer assunto que não seja maternidade.

Depois que o bebê nasce, parece que todas as perguntas passam a ser sobre ele. Estamos esquecendo de perguntar como está a mãe?

Dra. Renata Assef: Muitas vezes, sim.

Durante a gestação, essa mulher é acompanhada muito de perto. Depois do nascimento, naturalmente existe uma enorme atenção sobre o bebê.

Mas aquela mulher está se recuperando de uma gestação e de um parto, passando por alterações hormonais, possivelmente amamentando, dormindo menos e se adaptando a uma rotina completamente nova.

Então precisamos recuperar uma pergunta muito simples:

“E você, como está?”

O pós-parto também é uma fase importante da saúde da mulher.

A amamentação funciona como método contraceptivo?

Dra. Renata Assef: Existem condições específicas nas quais o aleitamento pode exercer um efeito contraceptivo temporário, mas simplesmente estar amamentando não significa estar automaticamente protegida contra uma gravidez.

A ovulação pode inclusive ocorrer antes da primeira menstruação depois do parto.

Por isso, contracepção precisa fazer parte da conversa no acompanhamento pós-parto.

E a vida sexual? Existe um momento certo para retomá-la?

Dra. Renata Assef: Não podemos responder essa pergunta olhando apenas para um número de dias depois do parto.

Precisamos considerar recuperação, cicatrização, presença de dor, sangramento, alterações hormonais, lubrificação, desejo, cansaço e também como aquela mulher está emocionalmente.

Existe ainda uma questão muito simples e fundamental: ela precisa se sentir pronta.

A sexualidade faz parte da saúde da mulher e pode ser conversada abertamente durante o acompanhamento ginecológico.

Para terminar: qual mensagem a senhora gostaria de deixar neste Agosto Dourado?

Dra. Renata Assef: Que amamentar merece incentivo, informação e apoio. Mas que precisamos cuidar para que esse incentivo nunca se transforme em cobrança.

Também precisamos olhar para a mulher que está por trás da amamentação.

Ela pode precisar de orientação. Pode precisar de ajuda prática. Pode precisar descansar. Pode precisar estabelecer limites. E pode ter vivido uma história de amamentação completamente diferente daquela que imaginava.

Cuidar do bebê é fundamental.

Cuidar de quem cuida dele também é.

Amamentar também é ser cuidada